Ruas cegas sem saída de nuvem trêmula

quinta-feira, julho 20, 2006

Arequipa

Arequipa é uma cidade grande, sentei em um banco da Plaza del Armas... Do meu lado direito a igreja que ocupa todo um lado do quadrado da Plaza, com suas paredes de pedras vulcânicas brancas, inteirinha talhada misturando condors com anjos; pumas com cordeiros e serpentes com Marias. Criollo. Na cidade parece haver uma grande competição entre as casas coloniais sobre qual teria mais detalhes, qual seria a mais bonita. E o meu voto vai para o Monastério de Santa Catalina. Um mosteiro. Uma pequena cidade dentro de Arequipa. Em 1580, 150 mulheres viviam isoladas do mundo com seus 340 empregados. Caminhando entre as ruas do mosteiro, suas construções ora me lembram a Grécia ora o Marrocos, lugares imaginários que eu nunca visitei... E de repente no fundo da vermelha rua Toledo surge a cúpula branca e simples da igreja do convento. Perfeita. O céu azul ao fundo não oferecia nenhuma nuvem para contrastar.
Mas voltando ao banco onde eu me encontrava.... Ao fundo da igreja se encontra o El Misti, um vulcão com neve eterna e ainda em funcionamento. Ele é lindo, imponente, parece ser a terceira e maior torre da Catedral da cidade. Do lado esquerdo o movimento dos pedestres é constante. Aqui não há turistas, e eles parecem nem perceber a minha ausência de traços indígenas. Entre as arcadas coloniais vejo meninos com baldes e mais baldes de bexigas d’ água. Estamos em plena guerra civil, eu sei disso, mas continuo sentada, imóvel. Numa cidade de vulcões e terremotos, uma guerra civil não parecia ser muito grave. A minha frente uma enorme fonte de água verde clorificada com pequenas purpurinas de reflexos do sol. A praça é inteira decorada com plantas nativas dessa cidade que chamam de "oásis branco do deserto" e foi exatamente quando eu perdi meu olhar num enorme pássaro sobre a palmeira que eu fui atingida :
BUM
Ainda tive tempo de ver o menino de vermelho correndo e minha camiseta azul tinha uma enorme mancha mais escura.... Poderia continuar impassível? Não; não agora que eu tinha sido atingida. O ataque tinha sido um convite, agora eu tinha que optar, ou eu me colocava a favor ou contra os guerrilheiros. E talvez por lembrar todos os perigos que cercavam a cidade, talvez tenha sido apenas raiva te ter sido atingida, eu que ate então me julgava transparente naquele banco de praça, peguei minha arma e sai correndo atrás da camiseta vermelha que já estava pingando. Ao ver os cabelos completamente secos, decidi meu alvo. E a corrida não durou mais que alguns segundos, meu alvo tinha sido atingido, eu estava vingada. Do outro lado da praça guerrilheiros riam, aquele riso de doer a barriga... definitivamente teria adorado viver mais carnavais no Peru.

A Trilha

Sobrevivi! Essa palavra se torna inevitável ao olhar para trás, depois de tudo o que eu vivi nesses 4 dias. Só quatro dias! Sinto todos os músculos do meu corpo, agora um pouco menos, confesso, depois dos banhos termais que se tornaram extremamente necessários! A verdade é que a trilha foi muito mais difícil do que imaginamos, os Andes não são montanhas acolhedoras quando se está dentro deles. Mas foi sem dúvida alguma uma das melhores coisas que eu fiz na vida, andávamos horas a fio, todas as vistas eram de tirar o pouco fôlego que nos restava, e não havia filme suficiente para registrar tudo. O grupo era excelente, a comida nos surpreendia a cada dia, tivemos um café da manhã com 7 pratos diferentes (panquecas, omelete, mingau, frutas com yogurt...), e teve também seus momentos bem excêntricos, como sashimi de frango, strogonoff de batata, gelatina quente de abacaxi.... e outras surpresas preparadas pelo nosso digníssimo chef!
Éramos acordadas todos os dias, antes do sol nascer com um chá de coca quentinho para quebrar a camada de gelo que se formava em nosso slepping durante as noites andinas. E por falar em intempéries andinas, nunca se entende.... Um amigo nosso disse que teve muita sorte com o tempo, pq choveu muito nos três dias da trilha mas em Machu Pichu ele SÓ teve garoa. E nós tivemos SOL! SOL! Ainda não acredito tivemos 4 dias de sol, pudemos ver todas as vistas incríveis que normalmente estão cobertas pela nevoa. Até pegamos uma cor de turista, marcas de top´s, leggings, e regatas estão pelo nosso corpo todo, além de alguns arranhões, hematomas, e picadas. E no caso da Marina bolhas, muitas bolhas. Estamos andando pela cidade como se nossas feridas fossem os troféus da nossa conquista, apesar de muitas vezes termos duvidado da nossa possível vitória!
O momento mais incrível foi também o mais esperado, que só de lembrar meu coração bate mais rápido. Acordamos as três da manhã com o céu ainda completamente iluminado pelas infinitas estrelas e começamos a caminhar rumo ao Intipunko. Andamos por duas horas, vimos o sol nascer, o coração acelerado e a gente tentando sobreviver até o momento tão aguardado, a ansiedade correndo na frente, entre escadas, mata fechada, pedras e ruínas incas. De repente ela surge, pequenininha, perfeita, lá no fundo, a cidade que os Inkas tentaram com tanto esforço esconder, e a legião de turistas que caminharam km's para esse momento estavam ali, adorando a cidade sagrada. O tempo passou em um flash. Não sei o espaço de tempo que separou a caída do meu queixo para o olhar que eu troquei com a Marina e que como um espelho revelou meu sorriso idiota, meu olhar abobado, o coração na boca.
A euforia deve ter durado algumas horas, só muito tempo depois eu fui lembrar de todas as dores.....

Puerto Quijaro

Era uma cidade de passagem, transitória. Tudo nela refletia isso. Suas formas não eram proporcionais e menos ainda simétricas. Prédios antigos com aspectos coloniais carregavam em si o peso da idade e pareciam perder cada vez mais espaço para as novíssimas caixas de alumínio que abrigavam os infinitos cibercafes. As cores não combinavam, e as pessoas caminhavam de um lado para o outro, embora não houvesse lugar algum para ir.
As ruas de pedra e terra e as moscas dentro dos restaurantes, de certa forma me encantaram. Aquilo era terra de ninguém e como tal, não havia quem a olhasse. Os viajantes simplesmente passavam e deixavam para trás cores e formas aleatórias.
Forasteira, eu olhava tudo aquilo, inebriada pelo calor.

Olhando a estrada

Se é verdade que nossas viagens podem ser mais interessantes antes da nossa partida, através dos devaneios da nossa imaginação e das nossas expectativas, no meu caso agora, o oposto parece ser verdade, a cada km de estrada, a cada troca de olhar, a cada sabor e a cada cheiro, um mundo de possibilidades se abre a minha frente, tornando qualquer idéia anterior insignificante, banal, ingênua…