Ruas cegas sem saída de nuvem trêmula

quarta-feira, dezembro 17, 2008

coração de veludo molhado

Te quero perto pra te ter longe.

sexta-feira, outubro 31, 2008

frases soltas

As frases que você escreve para ninguém....
leio como se fossem minhas.

domingo, abril 06, 2008

Quando eu cheguei ele ainda estava quente. A sala havia se transformado em uma micro empresa de tele marketing. As pequenas dobras do lençol pareciam esquecer de contar que guardavam um corpo. Uma senhora de 95 anos permaneceu o tempo inteiro muda, na ponta da grande mesa de jantar. Ela olhava fixamente para o porta retrato que ainda continha um sorriso. E era o cheiro constante de café que embrulhava o estômago.

sábado, setembro 15, 2007

Segunda-feira

Que dia é hoje?
9
Não, da semana.
Domingo e finalmente esfriou. Feriado fervendo, derretendo e eu me acabando como a muito tempo não fazia. E ai que eu parei e pensei, "então é isso mesmo, cheguei a um ponto onde pequenas perdições matam vontades". E no resto da vida tocamos a vida para frente. Talvez seja isso.
Acho que a humanidade se divide entre aqueles que estão do lado de Francisco I e os que estão do lado de Carlos V.
Qual é o seu lado?
Francisco I.
Da onde você tirou isso?
Acho que foi essa coisa da Independência que me trouxe a nostalgia da Monarquia.
Quem foi Francisco I?
Você não acha que entre duas coisas devemos sempre escolher um dos lados?
Mas então você está partindo do pressuposto que Francisco I e Carlos VI…
Carlos V, eu estou falando de Carlos V.
Enfim, você está considerando que eles estavam em lados opostos.
Sim, houve um tempo em que havia uma igreja, um quarteto e a rivalidade entre Francisco I e Carlos V.
E nesse tempo você não era nascido.
Não necessariamente, não.
Eu simpatizei com o quarteto.
Você não perderia tempo com eles. Acredite em mim. O que interessava no fundo era a rivalidade entre os dois monarcas, a igreja talvez um pouco pelo que ela veio a ser depois, mas o quarteto realmente não vale a pena. Ate porque você não acha estranho só se saber deles que existiram, assim como a Igreja, Francisco I e Carlos V, talvez ao mesmo tempo, e que existe uma grande probabilidade deles terem sido 4.
Você acha que seria possível eles terem sido 5?
Talvez, naquela época era muito comum denominarem um pequeno grupo de pessoas de quarteto. O que torna esse quarteto em específico ainda mais insignificante, visto que eles poderiam ser só uma representação dos outros muitos quartetos que existiam na época.
Você esta dizendo então que talvez eles nem chegaram a existir?
Eu não iria tão longe.
E esses quartetos de maneira geral faziam o que? Cantavam? Lutavam? Eram cozinheiros?
A palavra quarteto não exige nenhuma função especifica.
Assim como moça?
Talvez.
Outro dia eu tava na fila e uma moça começou a falar comigo. Eu não conseguia ouvir o que ela falava. Eu tava olhando para a pinta que ela tinha embaixo do olho esquerdo. E olhando fixamente eu ainda podia perceber que ela mexia a boca de maneira quase frenética. E eu fiquei ali brincando de focar e desfocar a pinta dela que era perfeitamente redonda. Eu cheguei a pensar que muito provavelmente ela trabalhava fazendo improviso vocal para CD’s de jazz. E de repente eu me peguei pensando que ela ficaria quieta se eu a beijasse na boca. E sem tirar o olho da pinta que ficava cada vez mais escura eu fiquei realmente morta de vontade de dar um beijo na boca dela, mas cada vez mais eu pensava que mesmo assim ela não calaria a boca. Foi ai que eu percebi que ela falava alguma coisa sobre o tempo. Eu concordei que estava bastante quente para essa época do ano e disse que meu namorado tinha dito que provavelmente ia chover no fim da tarde, mas que mesmo assim eu tinha saído sem guarda chuva. Ela deu uma risada e pareceu aliviada, mais por eu ter falado alguma coisa e menos por eu ter tirado o olho da pinta dela. Quando ela saiu eu vi um guarda-chuva preto bem grande com um cabo de madeira claro preso na alça da bolsa.
Você poderia se apaixonar por uma pinta debaixo de um olho esquerdo?
Eu já me apaixonei por uma marca de vacina nas costas. E talvez essa pinta.
Você estaria do lado oposto.
Você quer dizer que eu ficaria com Carlos V?
Era de se esperar.
Quer dizer que se você fosse separar a humanidade, estaríamos de lados opostos?
Eu jamais me apaixonaria por uma pinta debaixo de olho algum.
Eu não cheguei a beijar ela na boca. Você entendeu isso, não é? Talvez do jeito que eu falei não tenha ficado claro. Mas você entendeu que entre eu e a moça da pinta não aconteceu absolutamente nada, não é?
Mas você chegou a pensar que talvez ela fizesse improvisos para Jazz.
Sim, improvisos vocais.
A pinta é o que há de mais pessoal compartilhado com quem quer que seja.
Com qualquer um que olhe.
E você insiste em dizer que não houve nada.
Você não conseguiria suportar nem um olhar?
Não sei se você percebeu mas eu já não me importo.
Acho que isso acaba de virar algo que aconteceu há muito tempo atrás. Daqui há uns 20 anos você vai dizer a alguém : Era 2005 e nós conversávamos sobre a monarquia logo após o 7 de setembro.
Estamos em 2007.
Você não se lembrará disso.


Finalmente silêncio em cena. Um dos personagens parece não pensar em absolutamente nada, enquanto outro parece resolver complexos problemas de aritmética em silêncio. Um tem um olhar vago o outro tem o olhar fixo. Ambos desfocados. O que não pensa em nada, pensa em sair. Sai.

quarta-feira, maio 23, 2007

Guerra

Ela havia declarado. Estava em Guerra Fria com o mundo.

terça-feira, abril 17, 2007

Vira e mexe eu sonho

Vira e mexe eu sonho que estou em Nova York. Como se não bastasse meu universo onírico freqüentar a cidade com certa regularidade, há uma outra constante. Em algum momento do sonho eu me encontro perdida, sempre à noite, e lá longe é possível avistar uma espécie de mini-fábrica, com uma fachada branca e um enorme letreiro azul e amarelo piscando: SPIN.

sábado, dezembro 23, 2006

Quase um naufrágio

O café esfriou e seria possível acompanhar a conversa da mesa ao lado, se não estivessem tão absortos em seus próprios pensamentos. Ela havia tentado contar a história de um filme que havia visto na semana anterior. Ele não demonstrou grande interesse embora de tempos em tempos emitisse algum som. Ele comentou algo sobre ela estar mais magra. Ela não o levou a sério. Ele lia o pacote de açúcar enquanto ela atendia o celular. Não podia falar agora, retornava mais tarde.
- Sacarose
A mesa ao lado parecia lembrar de uma viagem. Um dos olhares se fixou em uma gravura. Cópia barata que destoava do ar moderno e impessoal daquele café.
Turner.
- “Amanhecer após o Naufrágio”
- Gosto das cores.
- Eu sei.
- Você gosta do cachorro. Adivinhei?
O celular tocou mais uma vez. Ele aliviado pediu a conta.
-Eu tenho que voltar. Você sabe.
-Quanto deu?
- Já acertei.
- Bom te ver.
-Eu sempre achei que ele era alemão, ingleses não costumam ver tantos tons.
Ela combinava com as paredes brancas do café, ele gostava de Rubens. Turner tinha um pouco dos dois.

Désolée pour toi mais je n’ai pas le profil


Tu voudrais faire de moi une épouse modèle

En accords parfaits avec tes idéaux,

Tu voudrais faire de moi la réplique fidèle

D’une fille de magazines, de romans-photos,

Tu voudrais faire de moi une femme docile,

Désolée pour toi mais je n’ai pas le profil.