Ruas cegas sem saída de nuvem trêmula

sábado, dezembro 23, 2006

Quase um naufrágio

O café esfriou e seria possível acompanhar a conversa da mesa ao lado, se não estivessem tão absortos em seus próprios pensamentos. Ela havia tentado contar a história de um filme que havia visto na semana anterior. Ele não demonstrou grande interesse embora de tempos em tempos emitisse algum som. Ele comentou algo sobre ela estar mais magra. Ela não o levou a sério. Ele lia o pacote de açúcar enquanto ela atendia o celular. Não podia falar agora, retornava mais tarde.
- Sacarose
A mesa ao lado parecia lembrar de uma viagem. Um dos olhares se fixou em uma gravura. Cópia barata que destoava do ar moderno e impessoal daquele café.
Turner.
- “Amanhecer após o Naufrágio”
- Gosto das cores.
- Eu sei.
- Você gosta do cachorro. Adivinhei?
O celular tocou mais uma vez. Ele aliviado pediu a conta.
-Eu tenho que voltar. Você sabe.
-Quanto deu?
- Já acertei.
- Bom te ver.
-Eu sempre achei que ele era alemão, ingleses não costumam ver tantos tons.
Ela combinava com as paredes brancas do café, ele gostava de Rubens. Turner tinha um pouco dos dois.

Désolée pour toi mais je n’ai pas le profil


Tu voudrais faire de moi une épouse modèle

En accords parfaits avec tes idéaux,

Tu voudrais faire de moi la réplique fidèle

D’une fille de magazines, de romans-photos,

Tu voudrais faire de moi une femme docile,

Désolée pour toi mais je n’ai pas le profil.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Legenda

Hoje meu sonho tinha legendas em espanhol.
Eram letras um pouco maior do que o normal, na cor branca.
Ainda não foi possível identificar a língua que era falada.
Acordei cansada.

A imagem que ninguém viu

O dia estava feio, nublado. O vento trazia a areia das dunas cada vez mais para perto numa dança quase transparente. Havia uma cadeira de praia já velha com pequenas listras alternadas. Vermelho, azul e branco. Um monza antigo, azul marinho, ocupava uma vaga imaginária de 45 graus e tinha o porta-malas aberto onde se podia ver um pequeno livro deitado sobre uma toalha verde clara com um pequeno furo, pelo nome do autor era um romance russo. Rico em detalhes. Uma garrafa de água continha um suco de uma cor rosa muito bonita. O som do carro estava ligado e ouvia-se uma balada dessas estrangeiras bem antigas, cantada por algum senhor bastante elegante e com muito gel no cabelo. O mar quase parou para ouvir o piano que soava leve. As gaivotas já cansadas de voar boiavam satisfeitas, hoje a praia era delas. A porta da frente aberta revelava um belo chapéu de palha tranquilamente sentado. Ele fazia silêncio. As nuvens em sua unidade cinza não precisavam nem se mexer. A dona do chapéu havia abandonado o cenário havia alguns dias. Ela nunca gostou de literatura russa.